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25/07/2017 - Comunicação de más notícias: um desafio permanente


 

 
Comunicar más notícias ao paciente e seus familiares nunca foi e nem será tarefa fácil. Atualmente, há cursos e teses sobre o assunto, o que facilita a compreensão do tema e motiva os profissionais, desde os mais experientes até os mais jovens, a buscarem atualização.
 
Alguns hospitais da Rede D’Or São Luiz vêm trabalhando para capacitar as equipes. Um deles é o Hospital Estadual da Criança (HEC), no Rio de Janeiro. Na unidade, a orientação é feita pela médica intensivista pediátrica Simone Gregory, em parceria com a psicóloga Michèlle Ávila. Não é de hoje que ela participa desse tipo de iniciativa: no Instituto Nacional de Câncer (INCA), onde a especialista atuou por 14 anos, Simone fez parte do projeto “Comunicação de Notícias Difíceis: compartilhando desafios na atenção à saúde”, financiado pelo Ministério da Saúde na implantação da Política Nacional de Humanização, em 2010 (1).
 
Má notícia é um termo utilizado para qualquer informação transmitida ao paciente e seus familiares que implique em uma alteração negativa da perspectiva destes em relação ao futuro. São exemplos: 
 
• diagnóstico de uma doença incurável;
• piora irreversível do estado clínico do paciente;
• má formação do feto;
• comunicação ao paciente oncológico;
• entrevista para doação de órgãos;
• óbito ou que virá a óbito nos próximos dias.
 
Para Simone, é importante que as instituições busquem capacitar suas equipes internamente, desenvolvendo programas de treinamentos próprios alinhados ao perfil do hospital.
 
“Receber uma má notícia, por si só, pode ser devastador, e a comunicação feita de forma inapropriada resulta em um sofrimento desnecessário. A utilização de técnicas que priorizam escuta e respeito permite que a comunicação seja feita de forma empática, propiciando que o receptor se sinta acolhido, que ocorram menos conflitos e os objetivos sejam atingidos”, explica a médica.
 
De acordo com a especialista, um protocolo amplamente utilizado pelas instituições de saúde é o chamado SPIKES (2). Ele contém seis passos para uma comunicação efetiva na abordagem de más notícias, descritos abaixo:
 
Protocolo SPIKES – seis passos para comunicação de más notícias (3)
S Setting up: preparação do médico (ou outro profissional de saúde) e do espaço físico em que ocorrerá a conversa.
P Perception: verifica até que ponto o paciente tem consciência de seu estado.
I Invitation: procura entender quanto o paciente deseja saber sobre sua doença.
K Knowledge: transmissão da informação.
E Emotions: compreender a reação do paciente e/ou acompanhante e responder de forma empática.
S Strategy and Summary: explicar ao paciente e/ou acompanhante o plano terapêutico e os próximos passos do tratamento, com o objetivo de diminuir a ansiedade e estresse causado pela notícia.

De acordo com Simone Gregory, “para a comunicação de notícias difíceis, o profissional precisa primeiramente se perceber em relação ao que vai ser comunicado e buscar se preparar, para que suas questões não se transformem em barreiras. Além de conhecer a notícia que será transmitida, é necessário estar familiarizado com todo o contexto envolvido no caso”.
 
O que fazer em situações de crise ou desespero
 
Tudo começa no modo de se comunicar. Para a médica intensivista, a linguagem verbal utilizada deve ser adequada à compreensão de quem está escutando. “A observação da linguagem não verbal ajuda a perceber a hora de falar, a hora de calar e a hora de mudar a estratégia. Não adianta seguir dando informações para quem está visivelmente atordoado”, observa.
 
Muitas vezes é necessário suportar um tempo em silêncio e se manter perto, permitindo que a pessoa possa se reorganizar para dar seguimento à conversa. “Fornecer uma informação não significa que o outro a compreendeu, então é importante solicitar que a pessoa diga com suas palavras seu entendimento sobre o que foi falado. Manter atitude respeitosa, validar as emoções e acolher são pontos fundamentais”, completa.
 
Para situações de crise emocional, é importante estar disponível, escutar, apoiar, acolher e estar sensível para perceber o que faz sentido para aquela família naquele momento. De acordo com Simone, às vezes, diante do desespero de quem recebe a notícia da morte de um filho, pode fazer sentido segurá-lo no colo pela última vez. “Uma equipe sensível e empática percebe essa necessidade e promove a despedida. Outras vezes, simplesmente se disponibilizar a estar com eles enquanto choram é de grande ajuda”, finaliza.

Referências
1. Ministério da Saúde. Comunicação de Notícias Difíceis: compartilhando desafios na atenção à saúde. (2010) Disponível em: <http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/comunicacao_noticias_dificeis.pdf>. Acesso em: 20 jun. 2017.
2. BAILE, W. F. et al. SPIKES – A Six-Step Protocol for Delivering Bad News: Application to the Patient with Cancer. In: The Oncologist, 5, p. 302-311, 2000. Disponível em <www.theoncologist.com>. Acesso em: 15 nov 2008.
3. LINO, Carolina Arcanjo et al. Uso do Protocolo Spikes no Ensino de Habilidades em Transmissão de Más Notícias. (2010) Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-55022011000100008>. Acesso em: 20 jun. 2017.