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20/06/2017 - Fatores organizacionais e qualidade em UTIs no Brasil


 


Theo Marins, do IDOR

A população mundial segue envelhecendo, e o número de idosos chegou a 12,3% em 2015, segundo levantamento da ONU. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (1), a fatia da população brasileira acima dos 60 anos alcançou 14,3% no mesmo ano, contra 9,8% em 2005. Por outro lado, as faixas etárias de crianças, adolescentes e adultos jovens encolheram sensivelmente nos últimos anos.
 
Os dados acima indicam que, se o número de brasileiros seguir evoluindo desta maneira, uma população composta majoritariamente por idosos será vista rapidamente. Além dos impactos sociais e previdenciários iminentes, o envelhecimento da população aumenta a demanda por cuidados médicos. Nesse contexto, os estudos que investigam melhorias na qualidade do tratamento de pacientes críticos se mostram extremamente necessários.
 
No Brasil, a terapia intensiva representa gasto elevado em saúde. Atualmente, o país ocupa o terceiro lugar no ranking de países com maior número de leitos de terapia intensiva (41 mil), atrás de Estados Unidos e China, segundo a Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) (2). Apesar do alto número, a maior quantidade de leitos está concentrada na rede hospitalar privada, e sua distribuição entre as regiões do Brasil não é homogênea. Desse modo, ganhos de eficiência e utilização ótima de recursos dentro das UTIs são essenciais para aumentar a qualidade e capacidade de atendimento dos centros brasileiros sem a necessidade de investimentos desproporcionais.
 
O estudo
 
Diante deste cenário, um grupo de pesquisadores do Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), em parceria com diversas instituições brasileiras e a Universidade de Pittsburgh, nos EUA, começou a estudar o efeito de fatores organizacionais sobre o custo do tratamento e evolução de pacientes internados em UTIs do Brasil.

“A organização, estrutura e processos de cuidado médico de UTIs exercem papel fundamental na qualidade e custo do tratamento oferecido ao paciente”, afirma Marcio Soares, coordenador do estudo e pesquisador do IDOR. Apesar do consenso, o conhecimento a respeito do impacto desses fatores sobre a evolução do quadro dos pacientes internados e seus recursos utilizados ainda é muito limitado. Além disso, a maior parte dos estudos disponíveis foi realizada em países desenvolvidos, e existem questionamentos sobre a capacidade da transposição dos resultados desses estudos para países em desenvolvimento, como o Brasil.
 
Com o objetivo de elucidar tais fatores, foi criado em 2013 o estudo denominado ORCHESTRA (Organizational Characteristics in Critical Care – Características Organizacionais em Cuidados Intensivos). “É o maior estudo brasileiro dedicado a investigar como fatores organizacionais de UTIs se traduzem para a melhoria do cuidado do paciente crítico”, destaca Soares. 
 
Resultados alcançados e novos estudos
 
Na primeira fase, os pesquisadores coletaram dados de quase 60 mil pacientes internados em 78 UTIs brasileiras durante o ano de 2013. Os resultados do estudo geraram oito artigos científicos, que revelaram aspectos importantes sobre o tratamento de pacientes críticos. De maneira geral, a implementação de protocolos assistenciais para otimizar o tratamento de condições graves frequentes, como a sepse e insuficiência respiratória, e para a prevenção de complicações durante a internação, como infecções hospitalares, foram associados com maior sobrevida e eficiência no uso de recursos (3).
 

No subgrupo de pacientes com câncer, que correspondem a 15%-20% dos pacientes internados em UTIs, a presença de farmacêuticos clínicos na UTI, o planejamento conjunto do cuidado do pacientes e a definição de metas terapêuticas com os oncologistas também foram associados com maior sobrevida e ganhos de eficiência (4).
 

Em outra análise, os pesquisadores descobriram que unidades mais eficientes são aquelas que possuem políticas de horários de visitação mais liberais e acolhedores para os familiares, o que fornece evidência para aumento do acesso de familiares às UTIs e da sua participação no tratamento dos pacientes (5).
 
Segunda fase

Em andamento, a nova etapa do estudo coletou dados de 2014 a 2015, alcançando importantes marcas: foram incluídas 93 UTIs de 55 hospitais localizados em 11 estados brasileiros, totalizando 129 mil pacientes observados. A RDSL apresentou dados de 40 UTIs e 54 mil pacientes, o que mostra a sua importância para o sucesso da pesquisa. 
Agora os pesquisadores estão especialmente interessados em entender como a proporção e qualificação dos profissionais de saúde que trabalham em UTIs impactam no tratamento e se refletem no desfecho dos pacientes. Ainda, os pesquisadores vão investigar como as unidades podem se preparar para a crescente demanda por cuidados intensivos por parte de pacientes idosos ou portadores de outras doenças crônicas além do câncer. Os primeiros resultados estão previstos para serem publicados ainda em 2017.

 
“O aumento expressivo do número de pacientes incluídos na segunda fase do estudo ORCHESTRA vai permitir uma investigação mais completa e detalhada sobre o tratamento de pacientes críticos”, completou Soares.
 
Referências:
 
1. SARAIVA, Alessandra; SALES, Robson; ROSAS, Rafael. Envelhecimento da população do Brasil deve se acelerar, aponta IBGE. 2016. Valor Econômico. Disponível em: <http://www.valor.com.br/brasil/4794347/envelhecimento-da-populacao-do-brasil-deve-se-acelerar-aponta-ibge>. Acesso em: 12 jun. 2017.

2. ASSOCIAÇÃO DE MEDICINA INTENSIVA BRASILEIRA (AMIB). Censo AMIB. 2016. Disponível em: <http://www.amib.com.br/pdf/Analise_de_Dados_v4_1.20.1095
_AMIB_Atualizado_by_AM_24Fev17_TemplateAMIB.pdf
>. Acesso em: 10 jun. 2017.

3. SOARES, Marcio et al. Organizational characteristics, outcomes, and resource use in 78 Brazilian intensive care units: the ORCHESTRA study. Intensive Care Medicine, [s.l.], v. 41, n. 12, p.2149-2160, 28 set. 2015. Springer Nature. http://dx.doi.org/10.1007/s00134-015-4076-7.

4. SOARES, Marcio et al. Effects of Organizational Characteristics on Outcomes and Resource Use in Patients With Cancer Admitted to Intensive Care Units. Journal Of Clinical Oncology, [s.l.], v. 34, n. 27, p.3315-3324, 20 set. 2016. American Society of Clinical Oncology (ASCO). http://dx.doi.org/10.1200/jco.2016.66.9549.

5. SOARES, Marcio et al. Family care, visiting policies, ICU performance, and efficiency in resource use: insights from the ORCHESTRA study. Intensive Care Medicine, [s.l.], v. 43, n. 4, p.590-591, 27 dez. 2016. Springer Nature. http://dx.doi.org/10.1007/s00134-016-4654-3.
 

http://rededor.com.br/am_esaude_detalhe.aspx?id=5336