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20/06/2017 - Síndrome de burnout e Oncologia


 

 
Lucianno Santos
Coordenador médico do Grupo Acreditar Oncologia e Hematologia/Oncologia D’Or (Brasília-DF)*
 
 
A primeira descrição sistemática da síndrome de burnout foi realizada pelo psiquiatra Herbert J. Freudenberg, em 1974. Freudenberg define a síndrome de burnout como um estado relacionado com experiências de esgotamento, decepção e perda do interesse pela atividade de trabalho que acomete profissionais que trabalham em contato direto com pessoas, como uma consequência desse contato diário. Tal estado resultaria da persistência de um conjunto de expectativas inalcançáveis (1). 

O quadro típico é composto por uma sensação de esgotamento físico e emocional que se reflete em atitudes negativas, como ausências no trabalho, agressividade, isolamento, mudanças bruscas de humor, irritabilidade, dificuldade de concentração, lapsos de memória, ansiedade, depressão, pessimismo, baixa autoestima e até mesmo ideação suicida (1). Uma série de outros sintomas, como dor de cabeça, enxaqueca, astenia, sudorese, palpitação, pressão alta, dores musculares, insônia, crises de asma, distúrbios gastrintestinais, são manifestações físicas que podem estar relacionadas à síndrome de burnout (1). 
 
Profissionais da área da saúde estão entre os grupos com maior risco de desenvolver a condição, com destaque para os que trabalham com pacientes oncológicos. Alguns estudos sugerem que cerca de 25% a 35% dos oncologistas clínicos, 38% dos radioterapeutas e de 28% a 36% dos cirurgiões oncológicos apresentam a síndrome de burnout (2). 
 
Muitas são as tentativas de explicar esses números, mas a rotina diária do oncologista pode estar na gênese dessa desordem. Diariamente os oncologistas se deparam com discussões sobre vida e morte, terminalidade, qualidade de vida, tratamentos e toxicidades, cuidados paliativos e rápida incorporação de novos conhecimentos científicos e avanços terapêuticos (2) 
É muito comum também a relação médico-paciente oncológico se estender para além do consultório ou hospital, tal a complexidade envolvida nessa relação. Para o paciente com diagnóstico de neoplasia, o seu oncologista torna-se o detentor de um poder quase divino, a diferença entre a vida e a morte, entre dor e alívio. Façamos um pequeno exercício mental do que isso significa para um médico mortal, o quão difícil é suportar isso de cada relação médico-
paciente. 
 
Sob a sombra do erro
 
É necessário também discutir a questão do erro médico associado à síndrome de burnout, pois ele pode ter um papel duplo nesse cenário. O erro médico tanto pode ser uma das causas como sua pior consequência. 
 
Todo médico vive sob a sombra do erro médico e de suas consequências nefastas para o paciente. Aprendemos na faculdade que não devemos errar, apesar de o erro (não intencional) fazer parte da espécie humana e ocorrer em todas as profissões. Deveríamos melhorar a forma de lidar com os erros e aprender com eles. A busca pela perfeição e consequentemente pela ausência de erros pode culminar de forma indireta com burnout, uma vez que haverá uma frustração pela expectativa não alcançada. 
 
Por outro lado, temos a forte associação entre a síndrome de burnout e a ocorrência de erros médicos. Um estudo americano com 8.000 cirurgiões revelou que aproximadamente 9% deles relataram um erro médico importante nos últimos três meses de atividade laboral, evento intimamente relacionado com a ocorrência de burnout (3). O medo de falhar e o erro médico sustentam um ciclo vicioso, constituindo causa e consequência na síndrome de burnout. 
 
Entre os oncologistas, além dos sinais e sintomas descritos anteriormente podemos destacar outras consequências, como quebra de relações sociais, abuso e dependência de álcool e ideação suicida. Um estudo com cirurgiões americanos portadores de burnout relata um aumento de 25% no risco de ocorrência de problemas associados à ingestão de bebidas alcoólicas nesse grupo específico (4). 

O suicídio também constitui um sério problema na classe médica, e boa parte dos estudos sugere que a taxa de suicídio entre os médicos é maior do que na população em geral (5). Dados de um estudo sobre causas de óbito na classe médica no período 2000-2009, realizado pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (CREMESP) e apresentado em 2012, demonstram que o suicídio corresponde à segunda causa externa de óbito entre os médicos, atingindo principalmente as profissionais do sexo feminino (6). 
 
Como tratar?
 
Deve-se iniciar pela conscientização de que o problema é real e precisa de terapia adequada. Uma vez que a gênese do problema é multifatorial, o seu tratamento passa pela identificação das possíveis causas, abordagem adequada e profissional, além de mudanças comportamentais. 
 
Provavelmente não existe uma fórmula única de tratamento, dada a complexidade da patologia, mas faz-se necessário o estabelecimento de uma estratégia de tratamento que pode incluir psicoterapia, antidepressivos, exercícios físicos, meditação, suporte religioso (quando aplicável), suporte familiar e prática de hobbies. A resolução das causas externas, quando possível, também influencia o resultado final do tratamento. 
 
O manejo da síndrome de burnout envolve mudança de visões e conceitos, individuais e coletivos, exige novos aprendizados e hábitos, devendo ser iniciado na entrada dos alunos nas escolas médicas e continuando durante toda a atividade médica do indivíduo. Encarar o problema sem ressalvas constitui fator crítico de sucesso no tratamento da síndrome de burnout.
 
Referências:
 
1. Borges LO et al in Psicologia: reflexão e crítica, 2002, 15(1), pp189-200. 
2. Shanafelt TD e Dyrbye in Oncologist Burnout: Causes, Consequences and Responses in J Clin Oncol, vol 30, número 11, abril, 2012. 
3. Shanafelt TD, Balch CM, Bechamps G, et al: Burnout and medical errors among American surgeons. Ann Surg 251:995-1000, 2010.
4. Oreskovich MR, Kaups KA, Balch C et al: Prevalence of alcohol use disorders among American surgeons. Arch Surg (in press). 
5. Meleiro AMAS: Suicídio entre médicos e estudantes de medicina. Rev. Assoc. Med. Bras., vol 44, número 2, abril/junho 1998, São Paulo. 
6. Conselho Regional de medicina do Estado de São Paulo (CREMESP): Dados sobre mortalidade dos médicos no Estado de São Paulo, Edição 292, maio de 2012.
 
* O artigo foi publicado originalmente na Revista ONCO&.