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19/04/2017 - Parto Humanizado


 

Glaucimara Gonzaga Nunes1
 
1. Coordenadora médica do serviço de obstetrícia dos hospitais Oeste e Real D’Or (Rio de Janeiro-RJ). Recém-inaugurado, o Hospital Real D’Or tem perfil materno-infantil e equipe para parto humanizado.

Nas últimas décadas, ideias que defendiam mudanças no manejo do parto ganharam espaço. As discussões, a partir da Europa, nos anos 1980, despertaram importante debate na comunidade científica, uma vez que encorajavam a adoção de medidas entendidas como úteis e o abandono de outras que estavam em uso, mas foram consideradas inúteis ou de risco para a parturiente e/ou bebê(1). Publicações de alta qualidade científica, compiladas e analisadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS)(2), deram origem aos Dez Princípios do Cuidado Perinatal(3), que devem ser encorajados para se alcançar um cuidado efetivo para mães e seus bebês. 

A resposta do Ministério da Saúde do Brasil veio no início dos anos 2000, sucedendo algumas iniciativas em andamento no país. Foi lançado o Programa Humanização do Parto, Pré-Natal e Nascimento, fundamentado nos preceitos de que as unidades de saúde devem receber  com dignidade a mulher, seus familiares e o recém-nascido, bem como devem adotar medidas e procedimentos reconhecidamente benéficos para o acompanhamento do parto e do nascimento, evitando-se práticas intervencionistas desnecessárias(4). Desse modo popularizou-se no Brasil o conceito de Parto Humanizado, que, de acordo com as evidências científicas, significa a adoção de um conjunto de condutas e procedimentos que visam a promoção do parto e nascimento saudáveis e a redução da morbimortalidade materna e perinatal. 
 
A parturiente deve optar pela posição mais confortável,  especialmente na fase inicial do trabalho de parto. Ela deve ter liberdade para deambular; ser orientada a se alimentar, encorajando-se a ingestão de líquidos claros, o que favorecerá a hidratação oral e reduzirá a necessidade de venóclise e infusão de líquidos. Procedimentos tradicionalmente adotados mas sem quaisquer comprovações científicas de melhoria dos resultados, como a raspagem sistemática dos pelos pubianos (tricotomia) e o uso de enemas para limpeza do intestino terminal, devem ser abandonados. No manejo ativo do trabalho de parto, devem ser evitados a infusão de ocitocina para estímulo das contrações uterinas, a amniotomia precoce, bem como a episiotomia, no momento do parto. Por outro lado, valoriza-se o uso do partograma, o alívio da dor com uso de métodos não farmacológicos durante o trabalho de parto e a analgesia do parto por meio de técnicas com mínima ou ausente transferência de fármacos por via placentária(5). 
 
Por fim, o espaço físico onde o parto ocorre deve seguir o modelo PPP (abrigando a evolução pré-parto, parto e puerpério), favorecendo o contato permanente  mãe-filho e o início imediato do aleitamento. 
Seguindo a lógica da humanização e melhoria da assistência ao pré-natal, ao parto e ao recém-nascido, a Agencia Nacional de Saúde Suplementar (ANS)(6), vem implementando o Projeto Parto Adequado, cujo objetivo é identificar modelos inovadores e viáveis de atenção ao parto e nascimento, que valorizem o parto normal e reduzam o percentual de cesarianas desnecessárias na saúde suplementar. Essa iniciativa visa ainda a oferecer às mulheres e aos bebês o cuidado certo, na hora certa, ao longo da gestação, durante todo o trabalho de parto e pós-parto, considerando a estrutura e o preparo da equipe multiprofissional, a medicina baseada em evidência e as condições socioculturais e afetivas da gestante e família.
Referências
 
1. YOUNG, Dione. Effective Care in Pregnancy and childbirth. Birth 1990; 17(1): 55-56.
2. CHALMERS, B.; MANGIATERRA, V.; PORTER, R. WHO Principles of perinatal care: the essential antenatal, perinatal, and postpartum care course.  Birth 2001; 28(3): 202-207.
3. Os Dez Principios do Cuidado Perintatal determinam que a assistência oferecida na gravidez normal e parto deve ser: (i) desmedicalizada; (ii) baseada no uso judicioso da tecnologia; (iii) baseada em evidência; (iv) regionalizada; (v) multidisciplinar; (vi) integral e holística envolvendo necessidades intelectuais, emocionais, sociais e culturais da mulher, de seus bebês e familiares; (vii) centrada na família; (viii) culturalmente apropriada; (ix) baseada no desejo da mulher, a qual deve ser envolvida no processo de tomada de decisão; e, (x) implementada respeitando-se a privacidade, dignidade e sigilo da mulher.
4. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Secretaria Executiva. Programa Humanização do Parto, Pré-Natal e Nascimento. Brasília (DF): Ministério da Saúde, 2002.
5. PORTO, AMF; AMORIM, MMR; SOUZA, ASR. Assistência ao primeiro período do trabalho de parto baseada em evidências. Femina 2010; 36(10): 527-537.
6. AGENCIA NACIONAL DE SAÚDE SUPLEMENTAR (ANS). Projeto Parto Adequado. Disponível em: http://www.ans.gov.br/images/stories/gestao_em_saude/parto_adequado/parto_adequado_fase2_proposta_de_adesao_prestadores.pdf. (Acessado em 03/04/2017).