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19/04/2017 - Estudo pioneiro: principais alterações genéticas do câncer de pulmão no Brasil


Sofia Moutinho, Revista Onco& 

O câncer de pulmão é uma doença com mil faces. São conhecidas mais de 35 mutações genéticas associadas à doença, pequenas alterações no DNA encontradas em tumores desse tipo. Cada população possui uma frequência de alterações específica, que confere a "cara" local da doença, com suas particularidades de apresentação e tratamento. No Brasil, esse perfil era desconhecido até então, quando pesquisadores do Grupo Oncologia D’Or e do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), pela primeira vez, identificaram as alterações genéticas mais frequentes nos brasileiros com adenocarcinoma de pulmão metastático de não pequenas células.

A primeira fase da pesquisa, premiada pela International Association for the Study of Lung Cancer (IASLC) e apresentada no congresso da instituição, em Viena, analisou o material genético das biópsias de 115 pacientes já com doença avançada1. Para análise, foi usado a chamado Next Generation Sequencing, uma técnica de testes de DNA e RNA que busca de uma só vez um grande número de mutações. Os pesquisadores avaliaram mais de 35 genes e 23 fusões nas amostras e observaram que o paciente brasileiro tem um perfil semelhante ao de populações europeias.

Do total de pacientes, 72% mostraram mutações. A mais prevalente encontrada, em 22% dos doentes, foi a K- RAS. A segunda mais comum, presente em 20%, foi a EGFR. Menos comum, mas observada em 7% dos pacientes, está a fusão de ALK.

A boa notícia é que já estão disponíveis no Brasil alguns medicamentos que bloqueiam essas alterações, como o gefitinib, o erlotinib e o afatinib para a EGFR, e o crizotinib no câncer com translocação do ALK.

A oncologista Tatiane Montella, do Núcleo de Excelência em Câncer de Pulmão (Neotórax) do Grupo Oncologia D’Or e principal autora da pesquisa, destaca que o mapeamento é importante para orientar as políticas públicas de saúde e as decisões sobre incorporação de novos medicamentos no sistema de saúde do país.

“Temos algumas drogas aprovadas para esses tipos de mutação no Brasil, mas ainda longe da realidade de países como os EUA. O tratamento para ALK, por exemplo, demorou quatro anos para ser aprovado pela Anvisa”, pontua. “Nosso estudo vem para mostrar quanto tempo perdemos ao não incorporar essa tecnologia e também basear novos investimentos.”

A oncologista ressalta que, por se tratar de uma população de origem étnica mista, o Brasil precisava de uma pesquisa específica para sua realidade. “Todos os estudos que tínhamos eram feitos com pacientes dos EUA, Europa e Ásia. Mas sabemos, por exemplo, que o perfil de alterações encontrado entre os asiáticos difere bastante do dos europeus”, explica a especialista. “Como a população brasileira é mista, não sabíamos de fato como era a cara da doença aqui no país.”

Investimento em pesquisa clínica

O Grupo Oncologia D’Or aposta no investimento em pesquisas clínicas de oncologia. Atualmente, os médicos do grupo estão envolvidos em quatro ensaios clínicos que buscam compreender melhor o perfil e os tratamentos para o câncer de pulmão. São estudos de genética da população, epidemiologia e farmacologia. “Precisamos conhecer melhor os nossos pacientes para que possamos definir melhor as estratégias de incorporação de tecnologias”, afirma Montella.

O diretor institucional do Grupo Oncologia D’Or, Carlos Gil Ferreira, lembra que, além de ser fundamental para o entendimento e enfrentamento do câncer, a pesquisa possibilita o acesso da população a tratamentos de ponta.

“O tratamento do câncer de maneira geral e também do de pulmão avançou muito, e hoje temos drogas muito eficientes e também muito caras, muitas delas ainda não disponíveis para população geral nos sistemas público e privado”, diz Ferreira. “A pesquisa clínica é uma via de acesso a esses tratamentos e uma forma de disponibilizar dados embasados para facilitar a incorporação de novas tecnologias." 

REFERÊNCIA

1 MONTELLA, Tatiane et al. P1.02-083 Gene Fusion Profile in Lung Adenocarcinoma Patients in Brazil. Journal Of Thoracic Oncology, [s.l.], v. 12, n. 1, p.539-539, jan. 2017. Elsevier BV. http://dx.doi.org/10.1016/j.jtho.2016.11.667. Disponível em: <http://www.jto.org/article/S1556-0864(16)31908-6/fulltext>. Acesso em: 13 mar. 2017.