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08/10/2018 - Prevenção e manejo do comportamento suicida


 

 

Annibal Truzzi 
Mestre e Doutor em Psiquiatria pela UFRJ 
Rotina do Serviço de Psiquiatria do Hospital Quinta D’Or 
Membro da Comissão Científica da APAZ



O comportamento suicida representa um grande problema de saúde pública. Desde o início deste século, os índices de suicídio no Brasil aumentaram, ao contrário do que ocorreu no resto do mundo . Estima-se que todos os anos, cerca de dez mil mortes por suicídio ocorram no Brasil e mais de um milhão em todo o mundo . Entretanto, cerca de 20% das mortes por suicídio são subnotificadas, o que indica que o número de casos seja ainda maior. O nosso país ocupa o oitavo lugar entre os países que registram a maior quantidade de óbitos por suicídio. Esses dados mostram a importância da capacitação de todos os profissionais de saúde no que diz respeito à prevenção e ao manejo correto do comportamento suicida. 
 
O suicídio pode ser definido com um ato deliberado executado pelo próprio indivíduo, cujo objetivo seja a morte, de forma consciente e intencional, utilizando um meio que ele acredita ser letal . O comportamento suicida é um termo mais abrangente e inclui a presença de pensamentos e planos de autoextermínio, além das tentativas de suicídio. Um estudo populacional realizado na cidade de Campinas, que contou com uma amostra de 515 indivíduos, revelou que, ao longo da vida, 17% da amostra havia pensado em dar fim à própria vida, 5% chegou a elaborar um plano suicida e 3% já havia tentado o suicídio . É um comportamento influenciado por determinantes multifatoriais e fruto de uma complexa interação entre fatores psicológicos, biológicos, culturais e socioambientais.
 
A identificação dos fatores de risco é de suma importância para auxiliar o profissional de saúde a determinar o risco de suicídio e, a seguir, estabelecer as estratégias mais eficazes para reduzi-lo. 
 
Os principais fatores de risco para o suicídio são: história de (1) tentativa de suicídio durante a vida e de (2) transtorno mental. Indivíduos que tentaram o suicídio previamente possuem entre 5 e 6 vezes mais chances de tentarem novamente. Mais ainda, a maioria dos indivíduos que tentaram o suicídio possuíam um transtorno mental, muitas das vezes subdiagnosticado e tratado de maneira inadequada. Os transtornos mentais encontrados com mais frequência nos indivíduos com comportamento suicida são a depressão, o transtorno bipolar do humor, o uso/dependência de substâncias psicoativas, os transtornos de personalidade e a esquizofrenia. Entre eles, a depressão e o transtorno bipolar do humor são os responsáveis por mais de 50% da morbidade psiquiátrica nos indivíduos com comportamento suicida . Quando mais de um transtorno mental se apresenta em conjunto, como a depressão e o alcoolismo, por exemplo, o risco de suicídio aumenta consideravelmente. 
 
No que diz respeito aos fatores de risco sociodemográficos, nós verificamos um aumento significativo de suicídio na população jovem (com idade inferior a 25 anos). O óbito por suicídio também é elevado na população idosa, devido à presença de fatores comuns a esse grupo etário, como perda de parentes e amigos, presença de doenças crônicas e isolamento social. 
 
A prevalência de óbito por suicídio é cerca de três vezes maior nos homens se comparados às mulheres. Na população feminina, ao contrário, em comparação com a população masculina, as tentativas de suicídio são três vezes mais frequentes. Na prática, observamos que os homens possuem mais resistência a procurarem ajuda para comunicar a intenção de se matar e permanecem mais isolados socialmente.
 
Outros fatores de risco para o comportamento suicida incluem sentimentos de desesperança e desamparo, o acometimento por uma doença clínica grave ou que cause comprometimento funcional ou dor (como por exemplo, neoplasias, SIDA, doenças neurodegenerativas, entre outras) fraco suporte familiar e social e falta de engajamento religioso.
 
A abordagem do indivíduo com comportamento suicida deve ser feita de maneira calma, com uma escuta atenta e postura empática. O profissional de saúde não deve emitir julgamento de valor, crença e convicção pessoal em detrimento dos valores do paciente. Da mesma forma, o profissional deve evitar banalizar o comportamento suicida ou sugerir que o mesmo seja trivial, ou ainda colocar o paciente em uma posição de inferioridade. 
 
Após a abordagem acolhedora, o profissional de saúde deverá avaliar o risco de suicídio através da entrevista clínica com o paciente e as pessoas mais próximas a ele. O emprego de escalas de avaliação de risco de suicídio pode auxiliar o profissional de saúde não somente na estratificação do risco de suicídio, mas também no manejo adequado do caso. A escala SAD Persons, por exemplo, foi planejada para ser utilizada por profissionais de saúde na avaliação dos fatores de risco e da necessidade de hospitalização de indivíduos com comportamento suicida. Essa escala auxilia a tomada de decisão entre alta hospitalar sob vigilância, alta hospitalar com acompanhamento psiquiátrico ambulatorial ou internação em clínica psiquiátrica.
 
É de suma importância frisar que quando há risco iminente de suicídio, o objetivo principal da conduta é manter o indivíduo a salvo e seguro. O profissional de saúde deve tomar medidas rápidas e objetivas para atingir tal objetivo. Mais ainda, especial atenção deverá ser dada aos familiares dos indivíduos com comportamento suicida, que frequentemente são tomados por sentimentos contraditórios e necessitam de orientações e suporte emocional. 

 
 
Referências Bibliográficas
1. Associação Brasileira de Psiquiatria. Suicídio: informando para prevenir. Brasília: CFM/ABP,; 2014.
2. Bertolote, J. M.,; Fleischmann, A. Suicide and psychiatric diagnosis: a wworldwide perspective. World Psychiatry, 2002 Oct;; 1(3):181–5.
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5. Patterson, W.M.,; Dohn, H.H,; Bird, J.;, Patterson, G.A. Evaluation of suicidal patients: the SAD PERSONS scale. Psychosomatics, 1983. Ap r;24(4):343-5, 348-9.
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